O olhar da psicanálise sobre as redes sociais: Realidade psíquica e virtual

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Cristiane Rodrigues é graduada em Psicologia

Para pensar na sociedade contemporânea é imprescindível nos atermos nas relações que são estabelecidas através das redes sociais e no mundo virtual. Vale ressaltar que, de certa forma essas relações facilitam a comunicação entre os sujeitos, buscando dar sentido aquilo que eles estão vivendo. Este trabalho ocupa-se com as relações estabelecidas através de sites de relacionamentos, baseando-se em uma visão psicanalítica sobre a relação entre a realidade psíquica e virtual.

O acelerado desenvolvimento tecnológico provocou uma série de modificações nas relações entre as nações. Dentre essas modificações, podemos dizer que essa tecnologia passa a desempenhar um papel importantíssimo, permeando os modos de vida e interferindo nos padrões de subjetivação de cada sujeito. Através desse viés surgem os questionamentos sobre essas relações que são estabelecidas pelas redes sociais, e o que se pode dizer sobre essa forma de relacionamento. Partimos do pressuposto que, a internet, vem se mostrando cada vez mais presente na vida cotidiana das pessoas do nosso planeta, a relação do indivíduo com essa ferramenta é considerada essencial nesse mundo pós-moderno, podemos dizer então, que está conectado é preciso. De tal forma que, atualmente, torna-se praticamente impossível para o indivíduo  viver desconectado, sendo que qualquer aparelho nos tempos modernos lhes permite essa facilidade. Mas, até que ponto isso interferi na vida do sujeito?  Você já parou para pensar sobre isso? Pois é, dessa forma, interessam-nos, mais especificamente, os reflexos dessa relação sobre a realidade do sujeito no mundo real, elementos em que se mesclam, realidade virtual e realidade psíquica, tendo em vista que esses fatores propiciam diferentes mudanças no contexto da vida  humana.

Através das redes sociais, é possível perceber que cada vez mais as pessoas necessitam da opinião e aprovações dos outros, a respeito delas mesmas. Observando as fotos que são utilizadas em perfil de usuários de sites de relacionamentos é possível perceber que existe uma necessidade de se mostrar feliz diante do outro, tentando assim passar uma imagem de perfeição.  Impera, portanto, “o desejo de ser objeto de desejo do outro”, levando em consideração que“ o objetivo do desejo seria, em primeira e ultima instancia, ser reconhecido pelo outro”. (CESAROTO, 2001, P. 88).

Para Castells (2003), a internet é sugerida como um espaço, grosso modo, que leva as pessoas a viverem suas fantasias “on-line”, esquivando-se de um possível mundo real, ancorando-se na realidade virtual.

O que fora mencionado pelo autor possibilita a compreensão, que somos mascarados nas redes sociais, e fazemos constantemente o uso dessas mascaras, pelo fato de precisarmos da aprovação do outro. As pessoas perdem o interesse pela realidade, e buscam através do virtual realizar suas próprias fantasias.

Vale dizer que, a fantasia é uma tela sobre o real que, atirando-se como tela,  evidencia também que há algo por trás dela, um vazio, a falta real. Enquanto tela, permite ao sujeito ‘criar ‘ um objeto no lugar do objeto faltoso, nomeando um objeto enquanto seu objeto, na tentativa  de anular a barra pelo qual está cindido (Wine, 1992, p. 54).

Para psicanálise todas as relações são mediadas pela ordem da fantasia. Portanto, a fantasia nada mais é que “efetivamente uma armadilha do olhar do sujeito, o qual se deixa fascinar, enganar, pois considera o quadro da fantasia sua janela para o mundo.”

Segundo Antonio Quinet, dessa forma é mais fácil se relacionar no mundo virtual do que no real, por vários motivos: o sujeito pode idealizar quem é, e não se mostrar, pode criar um personagem de acordo com o que ele acredita que o outro espera dele, esconder seus sentimentos, pensamentos verdadeiros e emoções, mostrar apenas o que se quer, aquilo que o outro almeja.

E o real o que seria? É a interpretação que os homens atribuem à realidade. Já o virtual para o filósofo Pierry Lévy é aquilo que nos permite uma saída do aqui e agora, ou seja, do espaço e tempo e uma mudança nos corpos. Quando se tem o conhecimento do que lhe falta, o sujeito, estará preparado para renunciar a uma boa parte de seus desejos, podendo assim, suportar que algumas de suas expectativas não passam de ilusões.

O objeto faltoso no qual ele se refere é a presença de um vazio preenchível por qualquer outro objeto, afinal, estamos diante de um objeto eternamente faltante, e por isso, objeto causa de desejo. A expressão realidade psíquica é compreendida como aquelas que caracterizam o modo de funcionamento do inconsciente.

Para Freud, no inconsciente não há indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a verdade e a ficção que é catexizada como afeto”.(Freud, 1897, p. 310)

E, Forbes (2011), vai dizer que a verdade no mundo virtual é efêmera e inconstante, criando assim um referencial baseado não na verdade mas, sobretudo, na mentira. Esse paradoxo existente no mundo não virtual é que permeia presentes relações, causando, assim, uma tremenda incerteza e, até certo ponto, uma dúvida constante sobre o real e o virtual.

É possível perceber que estes sites tem uma grande influência na subjetividade dos sujeitos que utilizam, seja na fala, na personalidade e até mesmo no modo de ser ou de se relacionar, até porque não se está face a face com o outro. Dessa forma, acaba interferindo nos padrões de subjetivação de cada um. Baseando-se em fundamentos teóricos da teória psicanalítica, é possível constatamos que as pessoas utilizam-se desses sites de relacionamentos para buscar o objeto faltante, portanto, objeto causa de desejo. Este, acaba interferindo assim na maneira no qual elas se relacionam, seja no mundo real ou fora dele. A proposta desse estudo foi mostrar, que essas redes oferecem condições para o sujeito satisfazer seus desejos inconscientes que nem sempre se concretizam no mundo real, e sim no virtual.

 

 

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